Devemos culpar as redes sociais pela burrice humana?

Inventaram a Computação de Neblina. É sério. Mesmo.
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A sua pontualidade diz muito sobre você. A sua impontualidade, mais ainda.
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Douglas Adams dizia que a espécie humana deu muito errado e não deveria sequer ter descido das árvores. O comportamento de muita gente ajuda a reforçar essa afirmação, mas de uns tempos para cá se tornou normal e corriqueiro atribuir a culpa das besteiras cometidas por indivíduos a outros fatores.

O rádio, a TV, os videogames, a internet. Todos eles já foram ou são bodes expiatórios e claro, a telefonia móvel e as redes sociais também não escapam. Mas a culpa é da ferramenta ou de quem a manuseia? Vejamos dois casos recentes:

Wentworth Maynard é motorista do Uber na região de Atlanta, no estado norte-americano na Georgia. Um belo dia seu carro foi atingido em cheio por uma motorista distraída que corria a mais de 170 quilômetros por hora numa área urbana. Maynard sofreu danos cerebrais e acabou ficando várias semanas hospitalizado. Já Christal McGee, a meliante no volante do outro veículo só teve ferimentos leves. Mas este não é o cerne da questão.

Ela estava correndo na cidade para compartilhar seus feitos no Snapchat, já que o app possui um recurso de câmera lenta que virou uma sensação. A dissimulada inclusive chegou a subir uma foto momentos após o acidente:

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Isso não é exclusividade dos EUA, um caso similar aconteceu em janeiro de 2015 no Paraná.

Maynard agora abriu um processo contra McGee e não obstante colocou o Snapchat na dança também, afirmando que a ferramenta tem grande parcela de culpa nessa história. O cidadão está exigindo que ambos banquem as contas médicas e uma pensão para custear os tratamentos que ele terá que fazer pelo resto da vida. O processo inclui um estudo recente da AT&T que concluiu que quatro entre cada dez motoristas distraídos nos EUA se dispersam com redes sociais.

A questão é, de quem é a culpa? Embora os recursos do Snapchat possam ser atraentes e até estimulem comportamentos imbecis a responsabilidade final é do usuário, no caso a motorista que fez besteira ao volante.

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Mudando de pau para cavaco no Canadá o problema é mais embaixo, de saúde pública. A província de Alberta detectou em 2015 um aumento de 80% nos casos de gonorreia (não procurem no Google Imagens, NSFW, NSFL). Foram 100 mil casos relatados, o maior número desde os anos 1980. Os casos de sífilis também dobraram se comparados com os resultados de 2014.

A dra. Karen Grimsrud, a responsável pelo Conselho de Saúde da província de Alberta sabe muito bem a quem culpar: as redes sociais. Embora não tenha dado nomes fica um tanto claro que ela se refere principalmente ao Tinder em sua declaração:

Novas ferramentas de redes sociais permitem que as pessoas se comuniquem rapidamente e consigam encontros sexuais anônimos, o que dificulta nosso trabalho em rastrear DSTs (…). Quando as pessoas não conhecem seus parceiros fica difícil contatá-los para que façam o tratamento adequado e contem com acompanhamento médico”.

Temos um problema aqui. Após décadas de educação sexual, medo da AIDS, campanhas massivas para enfiar na cabeça de todo mundo que usar camisinha é o melhor método de prevenção seriam as redes sociais as responsáveis por deseducar a população? Será que ao ver aquela garota ou garoto dar match as pessoas ficam tão empolgadas que se esquecem de se proteger?

Ainda tenho minhas dúvidas quanto a isso, sou inclinado a acreditar que a internet e suas ferramentas não deveriam ser responsabilizadas por comportamento arriscado ou imprudente de seus usuários, até porque elas não foram desenvolvidas com esse intuito. Não seria difícil um dia alguém mais esperto fazer uma burrada, jogar a culpa no app e tentar pagar de santo, dizendo que “a ferramenta me incentivou a errar”. Ou “o cão que botou pá nóis beber”. Se isso fosse seguido à risca a quantidade de sofás colocados a venda subiria vertiginosamente.

De novo, a tecnologia não é a vilã. Ela pode ser utilizada para o bem e para o mal, depende de quem faz uso dela. Eu não acredito que aplicativos e a internet não deva ser responsabilizada por pataquadas de humanos mas talvez eu esteja errado. O que você acha? Deixe sua opinião nos comentários.

Fontes: MeioBitDigital TrendsEdmonton Journal.