O que é a cultura do estupro?

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Por causa daquela moça que foi violentada no Rio, ouvi muito uma história de “cultura do estupro”. O que é isso?

É o seguinte: a cultura do estupro é a ideia de que a gente vive numa sociedade que, de uma certa maneira, aceita que as mulheres sejam estupradas. Essa expressão surgiu nos anos 1970 e foi criada por militantes feministas.

Mas que absurdo dizer isso! O estupro é ilegal, ué. Como alguém pode dizer que as pessoas aceitam isso?

Verdade, o estupro é mesmo ilegal e punido com prisão. Mas, de acordo com quem defende essa tese, não adianta só olhar para as leis para perceber isso. Precisamos ver qual é o papel da mulher na sociedade. E, óbvio, olhar para a maneira pela qual as leis são aplicadas.

Como assim? Esse seu papo está meio vago. 

Vamos deixa-lo mais concreto, então. Diversos intelectuais, sociólogos e outros especialistas mostram que a mulher é tratada de maneira diferente que os homens na nossa sociedade. As mulheres ainda são vistas como inferiores e como objetos sexuais. Isso quer dizer que elas são tratadas como se tivessem a obrigação de estar disponíveis para fazer sexo a qualquer hora. Outra questão importante é que os homens são vistos como incapazes de se controlar diante de uma mulher bonita. Seria “natural” a excitação de um homem frente a uma moça bonita. E eles não teriam culpa por sua falta de controle. Assim, estariam justificadas atitudes como “mexer” com mulheres na rua, abordar estranhas em festas e outros eventos e até força-las a dar um beijo.

Ih, já vi tudo. Você está com esse papo de esquerdinha, não é?

Estou apenas explicando o que você me perguntou. É verdade que a esquerda fala bastante sobre esse assunto, mas ele não é exclusivo desse grupo.

Certo. E o que isso tem a ver com o estupro?

Bom, se uma sociedade aceita esses tipos de comportamento, o estupro passa a ser um crime relativo. Relativo porque se os homens não conseguem se controlar e as mulheres valem menos que eles, é mais difícil convencer as pessoas que um estupro realmente aconteceu. “O assédio [nas ruas] e essa violência física [o estupro], e todos têm a ver com uma visão masculina que tende a ver o corpo da mulher como um objeto de posse. É o que também permite que você fale que ela é gostosa na rua, faça piada depreciativa”, disse Silvana Nascimento (em entrevista ao Jornal Nexo), professora do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo. A mulher é vista como a culpada por aquilo ter acontecido, já que ela sabe que os homens não conseguem se controlar.

Culpada como?

Existem várias explicações: a roupa era curta demais, estava bêbada demais, dançou de maneira sensual demais. A ideia que está por trás disso é a de que as mulheres devem seguir um padrão de comportamento específico se quiserem ser deixadas em paz. “Vivemos numa sociedade que nutre a ideia que se uma menina denuncia um estupro, a primeira coisa que acontece é cair a culpa sobre ela. Sabem que vão perguntar: mas você estava bêbada ou de minissaia”, disse Heloísa Buarque de Almeida, professora de antropologia da USP, ao UOL.

Será que esse povo não está exagerando?

Uma matéria da revista Superinteressante mostra o seguinte. Segundo o “Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, todos os anos cerca de 50 mil pessoas são estupradas no Brasil. Esses são os números oficiais, obtidos a partir da papelada formal. Mas eles não correspondem à realidade. O estupro é um dos crimes mais subnotificados que existem e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada estima que os dados oficiais representem apenas 10% dos casos ocorridos. Ou seja, o verdadeiro número de pessoas estupradas todos os anos no Brasil é mais de meio milhão”.

Mas e se eu não concordar com isso tudo? 

Você tem todo direito de não concordar, de achar que é chatice. Mas o fato é que essa está se tornando uma questão cada vez mais discutida em todo o mundo. E as mulheres, sejam de esquerda ou não, estão se mobilizando para que elas não sejam obrigadas a se submeter a situações humilhantes e violentas.

Por Diogo Rodriguez